quarta-feira, 16 de abril de 2008

(Foto: Michal Grzywacz)

Oh as casas as casas as casas

as casas nascem vivem e morrem

Enquanto vivas distinguem-se umas das outras

distinguem-se designadamente pelo cheiro

variam até de sala pra sala

As casas que eu fazia em pequeno

onde estarei eu hoje em pequeno?

Onde estarei aliás eu dos versos daqui a pouco?

Terei eu casa onde reter tudo isto

ou serei sempre somente esta instabilidade?

As casas essas parecem estáveis

mas são tão frágeis as pobres casas

Oh as casas as casas as casas

mudas testemunhas da vida

elas morrem não só ao ser demolidas

Elas morrem com a morte das pessoas

As casas de fora olham-nos pelas janelas

Não sabem nada de casas os construtores

os senhorios os procuradores

Os ricos vivem nos seus palácios

mas a casa dos pobres é todo o mundo

os pobres sim têm o conhecimento das casas

os pobres esses conhecem tudo

Eu amei as casas os recantos das casas

Visitei casas apalpei casas

Só as casas explicam que exista

uma palavra como intimidade

Sem casas não haveria ruas

as ruas onde passamos pelos outros

mas passamos principalmente por nós

Na casa nasci e hei-de morrer

na casa sofri convivi amei

na casa atravessei as estações

Respirei – ó vida simples problema de respiração

Oh as casas as casas as casas


Ruy Belo



poema lido e surrupiado numa casinha tóxica

13 comentários:

Andreia Ferreira disse...

Eu não sabia, mas senti isto tudo há um ano atrás quando mudei de casa, quando deixei a minha casa, a da infância, para crescer um bocadinho. (Curioso que nunca quis crescer...) Sim, as casas têm cheiro, como as pessoas. E nenhuma tem o mesmo da anterior.
E não sei o que estou para aqui a dizer... Olha, sei que vou mudar outra vez de casa e que adaptação custa sempre um bocadinho. Parece que a anterior fica sempre com um bocadinho de nós. O que não é necessariamente mau :)
Que sejas muito feliz na tua nova, ragazza (acho que isto é italiano mas não interessa nada :D) E vai dando notícias, menina!

Beijinho grande!

alice disse...

se a vida fosse um simples problema de respiração, era tudo mais Belo ;) de ruy Belo ;) beijo

Vanessa disse...

caso para dizer que leste e surrupiaste na hora certa! lá está a teoria de que certos poemas esbarram descaradamente connosco, né? e nós agradecemos! :) já agora... o ruy belo é mesmoooo belo! eheheheh!

beijinho*

Night Shadow disse...

sempre as casas onde nos refugiamos do mundo que nos sufoca.

Ana disse...

quatro paredes que nos protegem (?) do mundo lá fora, quatro paredes às quais nos confessamos (mesmo que seja apenas em pensamento),quatro paredes que tudo vêem e calam... as quatro paredes [e o telhado] que fazem a casa...

gosto tanto de Ruy Belo. tão bom encontrá-lo por estas "esquinas" ***

Queen Frog disse...

andreia,

chica que tienes razón! há q dar lugar a novas casas dentro de nós! Boa sorte tb na tua mudança.


alice,

inspirar, expirar! Encher os pulmões e um sopro de vida.
E sim, trouxe Ruy Belo comigo um dos essenciais q n poderia deixar de trazer).


vanessa,

sim é verdade!há poemas que nos esperam, lembras?!


night shadow,

e como precisamos delas para novamente voltarmos à rua. "Sem casas não haverias ruas".



ana,

do poeta: "Só as casas explicam que exista uma palavra como intimidade". é isso, n? :)

Cometa 2000 disse...

brilhante ruy belo!

:)

bom fds.

Queen Frog disse...

cometa,

brigada. também pata ti.

Sim ruy belo é isso!

menina tóxica disse...

lindo lindo :))))*

Queen Frog disse...

a ti o devo, menina tóxica :)

Anabela disse...

muito bem surripiado, sim senhor. Obrigada(*) por este poema lindo!

Ah, as casas, as casas...


:)


Beijos

(*) A ti e à menina tóxica

Queen Frog disse...

anabela,

;) no que me toca a mim, de nada!

menina tóxica disse...

:)