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segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

(Foto: Adriano Miranda)
[É para dizer, é?
Não sei. Tem que se...tem que se escolher, não é?
O «navio de espelhos», onde é que está?
Está aí o «navio de espelhos», não? Está? Está?]
[Fecha, fecha.
O que é que lhe parece? Hã?]
[Ai já está?
Vamos ver se eu consigo dizer isto inteiro.]
[Foi bem?
Mas fiquei com a cabeça a arder!]
[É bom. Que tal?
Agora um para puxar menos.]
[Ai!Já estou em pulgas.
(Agora um cigarrinho) É!...]
[Mas não era este que eu queria.
Ah!]
[Estou à procura do que não encontro.
Ah!]
[Por hoje já chega, ou não?
Só mais este.]
[Então vou começar.]
[Queria...]
[A noite...]
[Aqui está «dever», mas é «querer»]
[Estou com uma voz mais esquisita que no outro dia, não?]
[Todos, todos, todos. Até nós.
E agora?...]
[Este...talvez não interesse muito.]
[Não chega?
Ah!]

in Poemas de Mário Cesariny, escolhidos e ditos por Mário Cesariny

domingo, 18 de novembro de 2007



O Navio de Espelhos

Os Poetas e Mário Cesariny

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Quase



Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num grande mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo ... e tudo errou...
- Ai a dor de ser - quase, dor sem fim...
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se enlaçou mas não voou...

Momentos de alma que, desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...

Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...

Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...

Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

(Mário de Sá-Carneiro)

dito fabulasticamente por Mário Cesariny.E o pormenor do cigarro na mão.Delicioso...